Ela é acusada de enganar o JPMorgan. De alguma forma, o banco é quem está sob pressão

O julgamento por fraude de Charlie Javice está revelando detalhes constrangedores sobre as falhas do processo de aquisição do gigante bancário.

Uma semana antes de vender sua startup ao JPMorgan Chase por US$ 175 milhões, Charlie Javice pediu a um funcionário que ajudasse a criar uma lista com quatro milhões de usuários — mais de dez vezes o número real de contas que a empresa possuía. Quando o funcionário se recusou, ele conta que Javice tentou tranquilizá-lo.

“Ela disse: ‘Não se preocupe. Não quero acabar com um macacão laranja’”, testemunhou Patrick Vovor neste mês.

Em um julgamento iniciado em 18 de fevereiro, em um tribunal federal em Manhattan, Javice e outro executivo são acusados de fraudar o banco em dezenas de milhões de dólares. Se condenados, ambos podem pegar décadas de prisão.

Pairando sobre o caso está uma pergunta importante: como uma das instituições financeiras mais poderosas do mundo foi enganada a ponto de gastar tanto dinheiro com uma startup pequena, cuja fundadora praticamente não tinha histórico no setor financeiro?

A startup, chamada Frank, ajudava estudantes a acessar auxílio financeiro para a faculdade. O banco via nos jovens usuários da plataforma uma mina de ouro: milhões de futuros profissionais que poderiam ser convertidos, ainda jovens, em clientes fiéis de serviços bancários, cartões de crédito e outras ofertas.

O JPMorgan Chase comprou a Frank no verão de 2021, poucas semanas após Javice se reunir com o CEO do banco, Jamie Dimon. Meses depois, o JPMorgan descobriu que o número de contas na Frank estava mais próximo de 300 mil, e não dos quatro milhões que Javice alegava ter, segundo testemunhos de executivos no tribunal. O banco processou Javice em dezembro de 2022 e, em abril seguinte, agentes federais prenderam a fundadora da Frank no aeroporto de Newark.

QUEM É CHARLIE JAVICE?

Charlie Javice, hoje com 32 anos, cresceu em uma comunidade de expatriados franceses ricos no Condado de Westchester, ao norte da cidade de Nova York. Estudou na escola particular French-American School of New York. Após o divórcio dos pais, aos 10 anos, passou a dividir seu tempo entre a casa do pai, em Mamaroneck, e a da mãe, em Larchmont. O pai trabalhava no setor de fundos de hedge.

Estudante dedicada e ambiciosa desde cedo, Javice cursou finanças na Wharton School da Universidade da Pensilvânia, onde criou uma ONG chamada PoverUP, que oferecia microcrédito a pessoas em países em desenvolvimento. Após se formar, ela passou a se dedicar a outro problema social: o alto custo da educação superior.

Lançou a Frank em 2017, após trabalhar com engenheiros de software para criar uma ferramenta semelhante ao TurboTax, que ajudava estudantes a preencher pedidos de auxílio financeiro “em menos de quatro minutos”, segundo ela disse à Fox Business naquele ano. Os estudantes também podiam pagar alguns centenas de dólares para que a Frank negociasse seus pacotes de auxílio.

Seu estilo de capitalismo caiu como uma luva para investidores ricos em um momento em que sustentabilidade e diversidade estavam em alta. Por meio de conexões da Wharton, conseguiu apoio do investidor israelense Michael Eisenberg e do CEO da Apollo Management, Marc Rowan. Entre 2017 e 2020, ambos investiram milhões na startup.

Javice virou figura frequente na CNBC e em outros canais de notícias para promover a empresa, e foi listada na Forbes 30 Under 30. Em entrevistas, dizia estar ajudando a construir um mundo mais inclusivo, facilitando o acesso à faculdade para milhões de famílias de baixa renda.

Com a pandemia de Covid-19, mudou-se para Miami. Em 2020, ganhou destaque na mídia ao ajudar estudantes a acessarem subsídios emergenciais aprovados pelo Congresso.

Com a ascensão da empresa, Javice contratou o banco de investimentos LionTree para tentar vender a Frank em 2021. Capital One, Discover e Citizens Bank avaliaram a compra. Mas quem fechou o negócio foi o JPMorgan, que pagou US$ 175 milhões naquele verão.

O JULGAMENTO COMEÇA

O tribunal federal no sul de Manhattan, onde o destino de Javice será decidido, é um dos maiores e mais movimentados do país. As filas para entrar são longas — inclusive porque Sean “Diddy” Combs também está sendo julgado ali. A mãe de Javice, Natalie Rosin, tem estado presente todos os dias e, certa vez, furou a fila com cerca de 20 pessoas para se juntar ao ex-marido.

O juiz que preside o caso é Alvin Hellerstein, de 91 anos, com dificuldades auditivas. Ele usa fones de ouvido da Apple para acompanhar os longos debates entre advogados e frequentemente interrompe testemunhas com suas próprias perguntas.

Durante a abertura do julgamento, os promotores foram diretos: Javice e o chefe de crescimento da Frank, Olivier Amar, inflaram o número de usuários e inventaram dados falsos para convencer o JPMorgan de que os números eram reais.

“Esse negócio foi baseado em mentiras”, disse a promotora Rushmi Bhaskaran ao júri. “Charlie Javice e Olivier Amar mentiram para ganhar milhões de dólares.”

A defesa de Javice alega que o JPMorgan se arrependeu da compra após o Departamento de Educação mudar o processo do formulário Fafsa, o que tornou a tecnologia da Frank praticamente inútil. Também argumentam que o banco sabia quantos usuários reais a empresa tinha e só a acusou de fraude após o modelo de negócios ser afetado.

“O governo puxou o tapete do JPMorgan Chase, e o banco teve remorso. A única saída era acusar de fraude”, disse o advogado José Baez na sua declaração inicial. “Charlie Javice talvez nunca recupere seu bom nome, mas vocês podem dar a ela justiça.”

AMOR E MACACÃO LARANJA

O momento mais dramático do julgamento veio em 6 de março, quando Patrick Vovor, ex-chefe de engenharia da Frank, testemunhou que Javice e Amar pediram para ele forjar dados sobre quatro milhões de pessoas, uma semana antes da venda para o JPMorgan.

Usando uma jaqueta azul da Carhartt e uma gravata borboleta, Vovor disse que se recusou. “Eu disse que não faria nada ilegal”, afirmou no depoimento. Foi nesse momento, segundo ele, que Javice respondeu que não queria acabar presa.

A defesa de Javice, por outro lado, insinuou que Vovor estava magoado porque Javice havia rejeitado suas investidas românticas.

“Você queria namorar a Sra. Javice, não queria?”, gritou o advogado Ronald Sullivan. “Você mandou flores para ela?”, continuou. “Você também mandou uma mensagem dizendo que ela tinha ‘um corpo incrivelmente sarado’?”

“Não me lembro de ter feito isso”, respondeu Vovor. Ele negou ter inventado qualquer coisa por despeito.

OS DADOS QUE ENGANARAM O BANCO

Grande parte do julgamento gira em torno dos dados “sintéticos” que Javice queria — uma lista de nomes falsos gerada a partir de dados reais dos 300 mil usuários da Frank.

Quando Vovor se recusou a criar a lista, Javice contratou Adam Kapelner, professor de matemática do Queens College.

Ela pagou US$ 18 mil a ele, nos estágios finais da negociação com o banco, para criar um arquivo criptografado com dados de quatro milhões de pessoas. Usando um programa, ele gerou milhões de nomes e telefones falsos, baseados no perfil demográfico do banco de dados original.

Kapelner enviou esse arquivo a um fornecedor de dados terceirizado que o JPMorgan usava para validar se a Frank tinha os 4,25 milhões de clientes que Javice dizia ter.

A Acxiom, a empresa de verificação, foi encarregada de verificar se o número de registros correspondia ao alegado — não se eram pessoas reais com e-mails e telefones válidos. (Ryan MacDonald, executivo do JPMorgan, chegou a dizer que esperava que a Acxiom fizesse mais do que apenas contar linhas de uma planilha.)

Como o banco de dados era criptografado, a Acxiom não teve acesso aos detalhes dos usuários. O negócio foi aprovado sem obstáculos.

A defesa de Javice disse que o JPMorgan presumiu incorretamente que os dados eram originais, e não gerados sinteticamente.

Segundo os promotores, o esquema desmoronou quando o banco pediu a lista de clientes para lançar uma campanha de marketing. Javice repassou os arquivos de Kapelner, que foram reenviados ao banco. A campanha foi um fracasso — apenas 28% dos e-mails chegaram a uma caixa de entrada.

“Os nomes foram inventados”, disse Kapelner no tribunal. Ele afirmou não saber que Javice usaria seu trabalho na auditoria do banco, e não é acusado de nenhum crime.

“Parecia legítimo, mas talvez não fosse?”, perguntou o juiz Hellerstein.

Kapelner respondeu que teria sido óbvio “se tivessem feito uma diligência básica”.

A FALHA NA DILIGÊNCIA DO JPMORGAN

De fato, a diligência do JPMorgan falhou de forma espetacular. “Um erro enorme”, disse Jamie Dimon, CEO do banco, em uma teleconferência no início de 2023.

A defesa de Javice passou horas questionando por que o banco não percebeu os alertas que outros notaram. A Capital One desistiu da compra porque achou os dados estranhos.

A compra foi aprovada pelos níveis mais altos do JPMorgan, incluindo Marianne Lake e Jennifer Piepszak, então co-líderes das áreas de banco e cartões. Lake é cotada para suceder Dimon e Piepszak acaba de ser nomeada COO.

Alguns funcionários mostraram preocupação, como Sindhu Subramaniam, que escreveu no Skype: “como vamos verificar a alegação de acesso a 5 milhões de lares?”, pois “sem receitas tangíveis — como vamos saber?”

A ex-CFO do Chase, Sarah Youngwood, foi pressionada no tribunal sobre o que fez em relação às preocupações com os dados.

“Você foi a única do time a hesitar em aprovar o acordo, não foi?”, perguntou o advogado de defesa Patrick Korody.

“Não me lembro da ordem dos fatos”, respondeu Youngwood, hoje CFO da Nasdaq.

“Você acha que, como o Sr. Dimon queria o negócio, apenas mandaram o documento para você assinar?”, continuou Korody. Youngwood foi poupada da resposta por uma objeção de outro advogado.

Leslie Wims Morris, que liderou a negociação, compartilhou um trecho da carta anual de Dimon aos investidores, que dizia que às vezes “não há necessidade de fazer análise nenhuma”. A defesa diz que isso mostra que o desejo pelo negócio era tão grande que a equipe ignorou verificações.

No depoimento, Morris disse que foi uma piada com a equipe, mas reconheceu que a decisão de investir foi baseada principalmente na confiança.

“Tudo que aprendemos sobre o negócio foi o que a Sra. Javice nos comunicou”, disse ela. “Confiamos no que saiu da boca dela.”

O caso deve ser entregue ao júri nas próximas semanas, após os últimos testemunhos da defesa e os argumentos finais de ambas as partes.

Fonte:WSJ

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